
Um filho é mesmo significado de vida. Ele (a) parece uma grande lente de aumento, que amplifica tudo que somos. A parte boa e a parte ruim. E como é difícil, complicado e trabalhoso criar um bebê, a gente acaba se surpreendendo com nosso poder de adaptação e, ao mesmo tempo, com tanta coisa que temos enrolada dentro da gente e que, de uma hora para outra, é colocada em choque.
Antes éramos somente nós. Se estivéssemos felizes ou tristes, tudo bem, só tínhamos que nos preocupar com a nossa própria necessidade de ficar bem. Agora não. Há uma criança, que por maior capacidade de apreensão de conhecimento que tenha, é frágil e ainda depende exclusivamente de nós. Já não temos o direito de passar dias na fossa, de ficar de ressaca, de nos esconder do mundo. Há uma mini pessoa que precisa de nosso bem estar para aprender a ser feliz.
Isso por si já é uma pressão danada, especialmente para quem já tinha alguma dificuldade para sentir-se bem. Vivemos em um mundo que alimenta depressões, ansiedades, solidões, angústias. Um mundo doente (já dizia o Renato Russo). Lidar com tanta energia pesada não é uma tarefa fácil.
Há pessoas mais sensíveis, para quem essa tarefa é ainda mais árdua, pessoas cujas antenas estão sempre captando essas energias, e que precisam de alguma forma aprender a lidar com isso. Pois é: aprenda, pois o tempo urge e um bebê está em pleno crescimento, outra anteninha ligada no 220 e captando tudo que você – sim, você – passa.
Ou seja, alegria, tristeza, ansiedade, raiva, rancor. Além de tudo que aprende normalmente: sentar, pegar objetos, comer, engatinhar etc., um bebê ainda capta cada emoção e cada sentimento das pessoas que estão mais próximas dele.
Nesse ponto, a pressão já foi quase em seu limite máximo. Agora junte a isso a necessidade de continuar sendo um indivíduo, mesmo vivendo uma espécie de “simbiose” momentânea com um serzinho mamão, chorãozinho e brincalhão. É preciso cuidar da própria saúde (física, mental e emocional, principalmente), dos relacionamentos, do trabalho, das amizades.
As mulheres, na maior parte das vezes, já parecem mais preparadas para essas mudanças todas, aprendem desde criança que serão mães, e existe uma espécie de instinto que nos impulsiona para isso, mais cedo ou mais tarde, salvo raras exceções. E ainda assim, tudo isso é muito difícil. Se a gente se descuida, começa a passar ansiedade para o bebê. Mas se investe tempo maior para si, sente-se culpada por não dar tudo que pode à criança.
E separar a imagem de mãe da imagem de mulher é complicado nos primeiros meses. A amamentação, acredito, também dificulta isso um pouco, pois a gente se sente parte do bebê e o bebê continua sendo parte de nós, como era na barriga (mas é muito bom!). Aos poucos, eles se distanciam, criam uma certa independência e aí começamos a sentir falta de um tempo maior para nós. Ótimo, pois é aí que voltamos a buscar nossa identidade, complementada pelo papel maternal.
Agora, difícil mesmo deve ser para os pais. Homens não são preparados para isso. Dificilmente têm essa ânsia de ter filhos, e vivem um peso gigante da sociedade que ainda os pressiona com o papel de provedores – isso é comprovado cientificamente, mesmo em famílias que dividem todas as despesas, a ansiedade paternal pela necessidade de garantir a subsistência da família é enorme.
Acredito que eles mesmos se impõem pressões, angústias, conflitos. Que se unem aos antes já existentes. A delícia de ter um bebê que se parece com você, que espera você chegar em casa para brincar e que imita tudo que você faz é permeada por um mundo de intenções, necessidades, problemas. Talvez a falta do tal instinto da mulher dificulte isso.
Aí, junta pai e mãe, homem e mulher, conflitos de Marte e conflitos de Vênus. Tudo misturado na mesma casa, com a correria do dia a dia e a nova rotina que está sendo ainda criada. Não tem como ser fácil, né? Acho que antigamente era um pouco mais tranqüilo porque existiam dois papéis distintos: a mulher tinha os filhos e os criava e os homens trabalhavam e mantinham a casa. Simples assim.
A gente inventou de se emancipar e agora é tudo misturado. É preciso decidir quem fará o que, a quem delegar tarefas. Ou seja, ficou mais complicado. Talvez, quando bem resolvido, mais prazeroso e mais saboroso para ambas as partes, que podem vivenciar o que desejam sem imposições (ah ta), mas quantas pessoas conseguem essa coisa do “bem resolvido”?
A questão é: a vida está aí para nos ensinar os melhores caminhos. Com a vontade de acertar e as pressões internas diminuídas, é possível aprender a ser todos os papéis que temos nessa vida. Como um homem incrível (que está aprendendo muito nos últimos tempos, com todas as dificuldades possíveis) me disse hoje: é preciso “pensar com o coração”. AMO.